Conto A Inversão
Cássia Vicente
 
 
Não era difícil  compreender porque as frases dela sempre começavam com um não.
Era a própria negação sempre.
Não posso isso, não consigo aquilo, não gostam de mim, não sei fazer bem...não...não...
A negação estava sugando a sua vida, mandando-a para a direção contrária, na contramão da
desejada felicidade.
 
E ela, tinha alguma reação, tentava reverter esta negação?
Bem, tentou algumas vezes, mas ao ouvir o primeiro você não é capaz, desmoronava sua ponte, despencava as tábuas e os pregos a feriam sangrando até as entranhas.
Se desenhavam nãos na sua pele com letras manuscritas.
 
Se estranhas, posso até obter uma prova, um não por escrito, uma averbação no cartório da
auto-punição.
 
Se bem que a vida sempre estava dando a ela a oportunidade do sim.
Sua mente infatizava...
Sim, posso atravessar a rua na faixa e não machucar.
Sim, posso dizer sim ao sorriso e não o perder no eco.
Sim, posso dar a mão à palmatória e assumir os acertos.
Sim, tem quem gosta de mim.
Sim, posso começar uma frase com um sim.
Sim...sim...
 
Mas ela, ao rosto que a encara, pergunta - Não confia  em mim,por quê?
Pronto já deu fio para o  inicio do rolo, a negação do sim.
Vão rolar nãos e nãos enfim....
 
Se este é o fim que ela deseja que seja o seu não até que...
 
E como nãos aconteceram, mais que depressa a depressão, a negação do riso,
dos pensamentos simplificados e obtidos que aprendesse a pronunciar
para si um apenas um, sim, chegou e a levou a negação de si.
 
Não a condeno, nem a chamo de pobre menina, apenas declamo a sua inversão.
 
Julho 2011