Acordar vendo o sol quadrado?
 
Cássia Vicente
 
Entre os quadrados frios e cheirando a ferrugem podia ver o sol redondinho
na imensidão azul que não podia alcançar.
Minhas mãos suadas guardavam o marrom da ferrugem na tentativa de fugir
das minhas narinas o cheiro vermelho de sangue quente.
A plataforma lá fora, balançava nas ondas da imensa solidão que sentia.
Poderia estar na solitária, a escuridão faria meus olhos se calarem, sentiria
menos dor na mordida da ratazana do que meu coração sentia naquele momento.
O que os olhos não veem o coração não sente? Seria mesmo verdade?
O cheiro de ferrugem me deu náusea, larguei as grades e corri para o vaso escondido
numa mistura ocre e vomitei toda a minha vaidade.
Acordar vendo o sol quadrado? Mera formalidade que dispensaria.
Passei rápido pelo portão daquele lugar quase conpanheiro, sorri sem graça para os que
me aguardavam impacientes dentro de um velho ônibus sem ar-condicionado.
Seria o fim, ou estaria apenas começando um novo roteiro?...
 
Jataí-GO
abril 2011
 
 
 
 
 
 
 
 
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