A "outra"

Cássia Vicente

 Era uma noite daquelas...um frio danado dormia suas pernas...nem os cobertores ajudavam a esquentar...seus pés estavam petrificados, se um triscasse no outro tinha certeza que se quebrariam...ajeitou com cuidado os pés entre o cobertor...encolheu as pernas ...se aninhando em si...como uma cobra bem enroladinha...como conseguiria mais uma noite dormir sem seu " cobertor de pesinhos"?...como costumava se referir ao seu amante...estava acostumada a estar mais só nas noites do que acompanhada, mas nestas noites frias, que falta ele fazia...pensando nele esquentando a outra naquele outro quarto...que raiva sentia...teria que ser ela lá...não aquela sonsa...mas a vida não deu a ela a chance de encontrar com ele antes dela...agora só sobrava algumas poucas noites ao lado dele, e nem eram noites inteiras, apenas pedaços...ta certo pensava...afinal escolhera ser assim...poderia ter vivido uma vida normal, com marido, filhos, empregada, cachorro, nem cachorro se permitia ter...nunca se dera esta chance...tão jovem teve a (in)felicidade de encontrar olhos nos olhos naquele fatídico jogo de futebol que sua amiga insistira que a acompanhasse por causa de um namoro que nem chegara a uma semana, e ele estava lá....quando sentou na arquibancada lotada, seu olho cruzou com um belo homem sentado displicentemente tomando uma cerveja enquanto ouvia um amigo a falar sem parar sobre o time adversário...eles cruzaram o olhar por um acaso...ou destino...deveria ter sido por maldição..depois daquele encontro de olhos, nunca mais conseguira tira-lo dos seus pensamentos por mais que tentasse...já se passando alguns meses, encontra  com ele num barzinho num final de tarde...ela com amigos e ele sozinho numa mesa...muito impetuosa, não resistiu e foi até ele, pronto...nunca mais se separaram, todas as tardes se encontravam para longas conversas, até que numa tarde muito fria, ela o convidou para um café em sua casa...pronto...explodiu a primeira tarde de amor, seguidas de muitas outras tardes e meias noites...o amor era cada dia maior, mas ele não se separava da esposa como prometia...eram promessas e mais promessas...os anos foram passando...ela sempre com esperança de um dia ele bater à sua porta e dizer...agora sou só eu meu amor...ah! amarga ilusão esta... continuava assim dia após dia na espera...contava as horas que ele vinha vê-la...quando estavam na cama esquecia do mundo, eram só os dois e a Terra vazia...mas, depois quando sua cama ficava fria...ela chorava a sorte perdida...ou teria sido ela que não buscou a sorte, preferiu ser a outra...seria ela pecadora...não acreditava ser...seu amor sempre falara mais alto que qualquer ponta de remorso que poderia vir a corroer sua mente...afastava sempre os pensamentos inoportunos e ah! era feliz assim...deixa pra lá...melhor seria dormir e esquecer os pés frios...

 

 

 

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