Cavalo dado não se olham os dentes, diz o ditado.

O pacote que recebi, não abri para não ver os dentes do outro sorrindo para mim,
desafiadores como os dentes de um vampiro querendo sugar meu sangue vermelho de vergonha.
Deixei na mesa da sala e corri para o banheiro.

Coitada de mim, pobre de mim, infeliz de mim...que mais adjetivos diretos posso me atribuir?...
Não tenha pena de mim, apenas não me mostre seus dentes perfeitos, por favor. Travei um
monólogo frente ao espelho de cristal importado sabe-se lá de qual vidraçaria da capital e
chegado até mim como preciosa antiquidade.
Fingia acreditar que aquele espelho havia pertencido a uma dama de estirpe e morrera frente a
ele sorrindo entre os dentes de ouro do fingido viúvo em lágrimas.

Tempos atrás costumava receber pacotes como aquele, mas já havia me esquecido, ou me obrigara
a esquecê-los, até que aquele novo pacote chegou às minhas mãos trazidas pelas mãos suadas do carteiro.
Pude sentir o cheiro azedo do calor daquela tarde e senti náuseas.

Estava tão curiosa em ver o que trazia aquele pacote, ao mesmo tempo das minhas entranhas emanavam
tanto medo, que pensei vomitar meu almoço antes de mais nada, foi quando me deparei com o espelho e
encontrei uma estranha refletida no cristal lapidado a mão. Senti minhas mãos amarradas ao passado, percebi
em mim as orelhas queimando, as faces rígidas e os lábios esmaecidos, quase desmaiei e vomitei todo o meu
pavor na pia de um golpe.

Agora chega, disse aos alvos dentes que esborrachavam no espelho, vou abrir o pacote, quero saber o porquê
dele a esta altura.

Abri o pacote, não precisei me preocupar com os dentes de ouro do viúvo, minhas lágrimas agora valiam ouro, diria
sim, muitos sins ao presente....passado? Que passado, acabei de nascer!

Quanto ao ditado que citei acima...pra que se preocupar com os dentes??São complemetos que
um a menos ou a mais não desvalorizam o presente.

Cássia Vicente
Junho 2011

 

 

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