Loucuras
 
Cássia Vicente
 

A noite adentrou minha mente demente. Sem que programasse um ápice, o pico foi nas alturas nos meus delírios que confesso são pescadores de sentimentos.
Não gosto de confessionário, acho impessoal e frio, desumado e desleal, entretanto me ajoelho e derivo das minhas entranhas estas estranhas paisagens e tinjo de preto as linhas do meu papel de louca, que pode até estranhar ao ler, mas como cada qual com sua loucura a minha não é nenhuma diversidade das que você pratica, mesmo que pense no final nem chegar perto da minha.
Minha estranha loucura é apenas disfarce pra que não percebas que não quero entender o que se passa com você pra que não me desvendes nua. Faço da paisagem uma pintura crua.
Apesar que, tenho certeza,  você também se faz louco pelo mesmo motivo, uma forma de camuflar a covardia ou seria o medo de assumir o fracasso?
Melhor viver os dias panfletando as desculpas nos finais das tardes e entrar nas noites em paralelo, assim amanhece o dia e  nos detalhes amamos sem culpa. Que loucura!
Conversando com você na minha mudez, o preço que pagamos é alto, tem validade na idade que ficou pra trás nesta lida e sabe-se lá quantas loucuras vamos programar pros duros finais de  tardes que sempre são frios mesmo nos verões mais quentes. A gente transpira pra tentar derreter o gelo que tomou conta de nossa sensibilidade.
Culpa de quem? da pouca idade que nos salvou de alguma louca solidão ou de alguma decepção que não assumimos? Desculpa não cabe nos aniversários que se foram, alguns se salvaram em risos, outros foram padrão da fidelidade cármica. E os que virão? loucura seria pensar.
Podemos e vamos continuar nesta loucura, sem desculpas, sem levantar os olhos pra lua, nem medir um culpado, simplesmente nas manhãs nos amarmos até que um decida dar o último suspiro.
Como será que ficará o outro? Dará mão a palmatória na tumba? Se vingará da insanidade e mostrará sua mudez pra mea-culpa?
Será que se for eu a ficar vou suportar? Me acostumei a essa loucura na mão dupla da viagem que sem programar, tomei assento. Se arrependo, não confesso nem nesta conversa muda.
E se for você a ficar? Assumirá que a loucura era minha? Creio no credo que não oro, que sim. Assim voará pra rua na desculpa que fui eu a te prender na gaiola das loucas.
 
Se conseguir adentrar na minha mente muda, não questione minha loucura, nem coloque um ponto final, afinal vivemos na interrogação e isso vale mais que qualquer culpado na lista
de pretendentes a mártir. Já se passaram algumas horas, mais de vinte e um motivos  e doze segundos tenho pra deitar na nossa cama e te esperar amanhã pela manhã na minha pele.
 
 
 
 
 
 
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