De "fato"
 
Conto Cássia Vicente
 
Não saberia dizer o que acontecera desde aquela noite, talvez  um mal agouro, sei lá, o fato é que...
- Deixe ver, pode ser apenas um pássaro preto tentando brigar consigo mesmo no espelho, disse ele meio desconfiando.
-Talvez, melhor ir dar uma olhada, vamos lá. disse ela amedrontada.
Saíram para fora da casa, era uma noite atípica, muito vento, raios, trovões, não justificava ouvirem aquele martelar em meio aquela algazarra da natureza.
Desconfiados ou amedrontados, olharam para aquela coisa, que seria aquilo, um ser qualquer menos um pássaro, não era grande, mas bem descomposto pela proporção corpo-cabeça.
Aquele "monstro" estava bicando desesperadamente o carro, mas parecia um motor sem fim, de tanto bicar escorria sangue por seu bico disforme e tão grande quanto seu corpo.
Deram um passo a frente, a coisa parecia nem se importar com a presença dos dois, continuava ardentemente seu trabalho, se é que poderia dizer assim.
De repente um clarão se fez, decorrente de um raio e puderam observar melhor, os olhos da coisa, estavam fechados, parecendo dormir, com o barulho do trovão ele se virou e investiu sem dó no cachorro que também estava observando a cena.
Foi uma cena horrível, a coisa investiu com tamanha avidez que o cão nem pode se mexer, em segundos caiu duro no chão, e eles ali observando sem respirarem, tamanho o pavor.
O talvez pássaro, parou diante deles batendo suas asas no ar, estava parado como um beija-flor, deu um piado estridente e voou na noite.
Os dois correram pra dentro de casa, sentaram no sofá e ficaram em silêncio durante muito tempo, tentando assimilar o que tinham presenciado.
- Meu Deus o que era aquilo, disse ela em prantos.
- Nem imagino, mas que era coisa do outro mundo isso era, disse ele.
- Será porque fui ao cemitério esta manhã e nem orei pras almas...ai...ai...perdão..., falou ela baixinho.
-Quem sabe...decerto...
O fato é que depois daquele "fato" nunca mais os dois  tiveram paz. Todas as  noites  de lua cheia aquela coisa aparecia e inevitavelmente eles saiam para ver o estrago, mesmo que não quisessem ver, agiam por impulso, e depois do fato consumado, eram só cacos os dois.
Nunca comentaram o "fato" com ninguém...o fato é que com o tempo se acostumaram ao fato, fotografavam todos os "fatos" acontecidos e relatavam com minúcias num caderno especialmente comprado para aquilo.
Como explicar a atitude dos dois...estariam os dois compactuando com os fatos a troco de quê..., será que fizeram um pacto, ou o mal agouro deixou os dois de fato loucos....quem saberia dizer, se ninguém nunca soube dos "fatos" senão depois que encontraram os dois estendidos sob a lua cheia, num ato de amor, olhos esbugalhados, os corpos brancos que nem uma gota de sangue mostrava naqueles arranhões enormes que perfilavam seus corpos... e como explicar as fotos na máquina jogada ao lado mostrando de fato como os dois estavam praticando aquele ato.
Seria agouro daquele daquela visita ao cemitério. Ninguém jamais saberia, pois o fato não estava escrito, foi omitido, talvez propositalmente para que os fatos ficassem inevitavelmente inexplicados...

 
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Jpg Bibiche
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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