(E)terna

Cássia Vicente


O caso era antigo, onde a boca-de-sino se confundia ao marshmalow da kibon.
Cabelos encaracolados se misturavam a longos e lisos cabelos negros num colchão jogado no meio do pequeno quarto-sala.
Nada abalava os arroubos da juventude daqueles corpos amantes.
Displicentes, nem percebiam a desconfiança daqueles olhos curuiosos, sentados do outro lado da rua sempre no mesmo banco da praça, quando fingiam nem perceber as longas pernas subirem ligeiras os degraus da escadaria que terminava no estreito corredor bem em frente a porta que minutos depois as mãos dos olhos curiosos insistiam no toque-toque, querendo conferir o encontro invejado.
Era inútil bater, colocar o ouvido na porta e cessar a respiração por segundos intermináveis, de dentro do pequeno apartamento nenhum sinal comprometedor.
Será mesmo que enxergavam aquelas pernas subirem?
Querendo conferir, voltavam ao banco da praça e permaneciam fixos, ora na janela que nunca se abria, ora na porta de vidro esperando que ela se abrisse a qualquer momento e surgisse aquelas longas e ligeiras pernas atravessando displicente a rua,
Pesadelo da juventude! sempre se distraiam com outras pernas que passavam levando um corpo suado se refrescando com uma generosa bola de sorvete que os faziam delirar sentindo um êxtase quase verbal, forçando-os a esquecer por instantes porque estavam ali e ligeiro se desviarem em outra direção. Razão pela qual nunca souberam de fato o que acontecia naquele colchão que o imagnava lambuzado de marshmalow até a última colher.
Muitos anos se passaram e ainda a curiosidade os afunilava para aquele mesmo banco da praça,
já gasto pelo tempo.
Voltando ao passado, revia aquelas longas pernas e as imaginava ainda subindo aqueles degraus como tortura da sua (e)terna sensação de as possuir um dia,
Na sua incerteza, tinha certeza que naquele antigo apartamento que já serviu e ainda servia a muitos corpos, jamais guardou em suas paredes história mais secreta que aquela daqueles anos transviados.
Ainda tinha curiosidade em saber o que realmente acontecia entre aquelas quatro paredes todas as tardes.
Jamais saira de sua visão aquelas longas pernas que via subir e nunca descer, que ainda nos seus quase sessenta anos ainda as desejava.
Tortura que iria levar ternamente enquanto ainda tinha tempo para descansar naquela porta.
Sem longas pernas nem sorvetes para distair passava as tardes fantasiando suas memórias.

Jataí.GO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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