, desejados, abusados.
O beijo da aranha
Cássia Vicente
 
 
Conta a lenda, ou estava escrito na sinopse? 
Ha se pensar, mas outra hora, o que importa é a história.
 
Era uma vez uma boca, vermelha, carnuda, desejada, abusada, tentação de muitas bocas desesperardas por aqueles lábios vermelhos, carnudos, desejados, abusados.
Estes lábios eram egoístas, provocavam até o último suspiro e cerravam num sorriso irônico, quase mortal.
 
Pouco se importava com isso, continuava insistindo. Beijar aqueles lábios vermelhos, carnudos, desejados, abusados era maior que a própria sorte, a morte anunciada do desejo.
Os meses passaram, a primavera foi embora, voltou, as flores floresceram, murcharam, o frio chegou, foi embora, chegou o verão, novamente chegou o outono anunciando o perfume daqueles lábios vermelhos, carnudos, desejados, abusados como amora.
Nunca perdera a sorte do desejo, naquela manhã, seria mais uma tentativa de beijar aquela boca vermelha, carnuda desejada, abusada, sua oração matinal. 
 
Aconteceu que, ao ligar a televisão ouviu quase petrificado:
Morreu esta madrugada vítima de picada de uma aranha ainda desconhecida a boca mais vermelha, carnuda abusada, desejada da cidade. 
 
Calmamente, desligou a televisão, vestiu seu traje de gala e foi se despedir daquela que fora seu último desejo em vida, não sem antes, colher algumas amoras vermelhas, carnudas, desejadas, abusadas do seu jardim. 
 
A sua morte també fora anunciada.
 
 
Jataí.GO
26.08.2009
 
 
 
 
 
 

 

 

::::VOLTAR::::