O diário

Cássia Vicente

Era hábito escrever naquele caderninho que ganhara quando menina
e deixara no fundo do baú por mais de cinquenta anos...
Todas as noites sentava na velha escrivaninha que fôra do seu bisavô
e abria o pequeno diário já amarelado pelo tempo como se fosse seu
amante e lá escrevia seus mais secretos desejos.
Num ritual, repassava rapidamente pela memória todo seu projeto para encontrar um amor.
Como de costume, nada que pudesse ser registrado de interessante havia acontecido,então,
escrevia seus sonhos num pequeno poema.
Colocava sempre no final retissências, querendo instigar no futuro leitor a imaginação.
Ninguém precisaria saber se acontecera ou não, era de poucas palavras, ninguém iria estranhar certos fatos.
Escrevia diariamente para que, quando não mais estivesse ali, alguém encontrasse aquele livrinho já gasto e disesse:
- Nossa! como ela foi feliz, como pôde viver um amor tão lindo secretamente?...
Este era seu maior trunfo! ou seria sua maior vingança?...

 

 

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