Onze horas e cinquenta e nove minutos.
Cássia Vicente
 
 
De madrugada um apelo no corredor ascende passos percebidos pelo observador.
Uma faísca na lâmpada da cozinha anuncia o prenúncio de tempestade.
Da varanda vem um aviso: ventania na janela mal tramelada.
Do quarto o absoluto silêncio, esconde a respiração ofegante,
nem o relógio ousa bater as doze badaladas, travam os ponteiros:
 onze horas e cinquenta e nove minutos.
Do quintal o cão uiva olhando para a lua, deslumbrante.
A coruja move trezentos e oitenta graus e bate as asas.
O colchão sente o escorrer do líquido amarelo e quente,
as paredes percebem dois olhos semiabertos
 refletirem pelas costas do abajour,
O pijama não pode mais disfarçar os arrepios,
o frio se instala, ele tem um nome: Assédio.
O relógio continua engasgado: onze horas e cinquenta e nove minutos, eternos.
Seria melhor levantar, colocar o terno e esperar com uma flor na mão?
Se pergunta, pedindo: Por amor a mim. Não responda!
 
Agosto 2011