Tesão de dois

 

Cássia Vicente

 

 

De repente senti um cheiro desproposital vindo do fogão, fui até lá e vi uma panela no fogo borbulhando,

era de lá que vinha aquele cheiro deliciosamente intrigante, cheirava a tesão, quase perto do fogão,

dei meia volta, decidi não ver o que ele estava preparando, afinal seria a surpresa do almoço, quem sabe

seria o início de um ousado prato a dois, com direito a vinho tinto, muito queijo goiano ralado, olhares

encontrados nas mãos que se esbarrarão na panela de ferro, único ornamento no centro da mesa que seria

posta por mim, com requinte de rei.

Isso, assim seria, o ousado aroma iria me apresentar o seu sabor à mesa e depois da mesa.

Respeitando meus instintos, fui me distrair com uma taça de vinho enquanto o prato estava sendo preparado

pelo meu cozinheiro predileto.

Ele sabia como ninguem adicionar condimentos nas doses certas para as horas mais incertas.

Enquanto degustava o vinho sentada no sofá, observava sua maneira prática e envolvente de cozinhar.

Peito nu, braços fortes de homem que lida com a terra, pareciam naquele momento os braços de um bailarino

conduzindo seu par.

Delicadamente ele escorreu a carne seca, desfiou bem fininho, voltou na panela e fritou no azeite e alho. 

O perfume ia crescendo ao mesmo tempo que o vinho ia acetinando meu corpo.

Acrescentou um pouco de pimenta e o aroma dobrou, cresceu como meu desejo de degustar aquele prato ou

o responsável por ele ( ? ).

Colocou o arroz, a água, abaixou o fogo, disse em tom firme que não necessitaria de mais tempero,

a simplicidade era o segredo.

Concordei, imaginando a nossa simplicidade explícita que aconteceria depois dos pratos limpos e das taças vazias.

Batizei o Prato do dia depois do segundo ato de *Tesão de dois".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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