Um sorriso pelo seu olhar

A janela parecia uma babá que adora contar histórias dos antepassados para o seu menino, e ele pequeno demais para entender acabava adormecendo antes do final.

 Estaria me contando uma história? Me sentia aquele menino todas as vezes que passava por ela,  que como uma moldura enfeitava aqueles olhos distantes dispostos bem ao centro. Saberiam eles para onde olhavam? Perguntava todas as tardes quando passava do outro lado da rua e olhava sem discrição para aqueles tristes olhos que de longe se pareciam com olhos bem conhecidos meus. Por que não conseguia entender a história? Já estava crescidinho e tinha certeza que ficaria acordado até o final, mas o final era sempre a esquina que me obrigava a perder de vista aquela janela e aqueles olhos.

Como bom observador sabia que a qualquer momento encontraria o ponto final ou inicial com minha intuição insistia em recordar. E foi assim,  numa daquelas tardes lindas de outono que consegui ler nos olhos da moça os da minha mãe.  A janela agora parecia sorrir com o sol iluminando sua cor carmim, mas os olhos, os olhos de minha mãe continuam ali inertes.

Seria pecado comparar os olhos daquela moça com os da minha mãe? Se fosse que Deus me perdoasse, mas passei a minha infância olhando para aqueles conhecidos olhos e a me perguntar se, algum dia já sorriram ou iriam sorrir para que eu os pudessem senti-los e acreditar que eram felizes à sua maneira.

Os vi sorrir uma única vez, quando se cerraram definitivamente nesta vida. Já era um adolescente quando ela se foi, acreditei que ela sempre soube do meu desejo e me deu seu último presente confirmando sua tristeza em vida e felicidade em morte. Tenho certeza que somente eu os vi sorrir. Por que ela não teve uma janela para se distrair? Os braços do meu pai não pertenciam a ela?...

O tempo passou, jamais esqueci o triste olhar de minha mãe escondido atrás dos seus lábios falantes, seria o único a perceber?  Ou o último.

Hoje,  entendo  toda aquela disposição como uma peça de teatro. Aplausos minha mãe, você fez bem o seu papel de atriz, e eu  como fiquei , assistindo da platéia aquela peça de Dante? Há duras penas cheguei à terapia e agora já posso escrever meu desabafo em forma de conto de uma moça que encontro todas as tardes na janela quando volto para minha casa.

Voltando o olhar para a moça, dei um largo sorriso, um aceno, afinal nos víamos todas as tardes, já poderia considerar uma amizade,  ou era somente eu que a via, me perguntava enquanto acenava. Para minha surpresa ela esboçou um tímido sorriso e levantou delicadamente a mão direita balançando os dedos delicados.

Meu Deus ela não é de barro como aquelas namoradeiras que colocam  para enfeitar as janelas. Tem vida naquela pele morena! Seus cabelos negros se mexeram e pude sentir um suave perfume de rosas.

Estarei apaixonado? Serei eu a fazer com que aqueles olhos sorriam antes do último suspiro?

Amanhã trocarei de calçada.

Cássia Vicente

 
 
 
 
 

 

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