ALMA DE POETA
Clara da Costa

Somos uma realidade discreta,
somos sementes levadas pelo vento...
há um pássaro doce que habita nossos sonhos,
quando a palavra brinca com nossos pensamentos.

Nossa fragilidade aflora
numa alma inquietante,
num coração palpitante
de verdades estranguladas.

A alma de poeta aflora,
no esconderijo das madrugadas,
no silêncio das razões perdidas,
no sussurro do vento.

O tempo passa, sem pressa,
dobramos a esquina da saudade
e, serenos,
convidamos a alma prá dançar...

Praia de Pipa/RN/Brasil




 


Alma de Poeta

Eugénio de Sá

Não sou daqui nem de parte nenhuma
Minh’ alma de poeta, porque universal
Não pertence a ninguém, nem a Portugal
Tem a deriva que o vento dá à escuna

Por isso me derrubam as afrontas
Que sofrem outros povos, outras gentes
E dos meus males os que me são freqüentes
São a desdita d’outros, os de monta

Pois ser poeta é ser comprometido
C’o resguardo dos fracos, dos incautos
Mesmo que isso me traga mais sofrido

Assumo, consciente, o tom mais alto
Na defesa de todo o oprimido
P’la denuncia de quem lhe mova assalto!

Sintra/Portugal