Confissões, a caminho do espelho.

Cássia Vicente

No auge dos meus cinquenta e poucos, poucos mesmo, anos,
me deparei pensando, como seria se ainda estivesse no auge
dos meus vinte e poucos, poucos mesmo, anos.
Presenciei um filme rapidinho na minha frente,
bem de frente a algumas poucas, poucas mesmo, rugas.
Então, mais que depressa, quis voltar aos meus cinqueta e poucos anos.
Cada ano, desde os meus vinte e poucos foram recheados com uma mistura de
mel e fel que deixa um sabor agridocemente saudável a cada manhã que abro
os olhos, sorrio dizendo bom dia ainda que, sem coragem de encarar o espelho.
Me pergunto sistematicamente porque o espelho é meu vilão número 1.
Li ainda agorinha no livro Comer, Rezar e Amar da escritora americana Elizabeth Gilbert,
"...certa vez ela me disse olhando no espelho: - Reconheço que não fico bem com qualquer roupa,
mas mesmo assim não consigo deixar de me amar."
Me chamou a atenção, ou tenho que confessar, me deu um chacoalhão que não caí porque estava deitada.
Me fez encarar minha realidade e me perguntar: - Porque não me encaro no espelho???
Decerto a vilã número 1 seja eu!!!
Não tenho aparência de uma velha senhora, até me confundem com minhas filhas, bom sinal,
e me acham uma vovó de primeira viagem, jovem e elegante.
Gosto de cuidar do meu corpo, às vezes penso que até exagero, devo sim, estar descuidando
de minha alma porque senão o espelho seria meu amigo número 1, ou não, sabe-se lá o que
aconteceria entre eu e ele se o encarasse pelo menos um dia!
Confesso que me olho no espelho, analisando meu visual, elogiando algumas vezes, reclamando outras,
mas sempre no artfície da minha veia artística panorâmica.
E sobre os olhos daquela mesma eu, que habita dentro de mim, minha irmã gêmea que nem eu mesma admito existir
nas horas mais próprias, quando vou ter coragem de nos expor, ativando nossa veia poéticamente incorreta, nada eclética,
totalmente devassa, sei lá mais o quê...?
Admito que estou tentando encarar o espelho, algumas vezes até pratiquei, mas a covardia deu sua gargalhada triunfal!
Me veio agora, uma comparação, não sei se ideal, mas, pensei que, encarar o espelho é como ler um livro em ingles,
que, infelizmente pouco pratico, e sei, que se tentar, mesmo usando o dicionário muitas vezes, indo bem devargar
na leitura chegarei até o final e tirarei minhas conclusões. Questão de priodidade!
Medrosa me pergunto: - Porque não levanta do sofá, encara o espelho e tenta ler sua língua estrangeira?, dou uma forcinha extra:
aproveita que hoje é domingo, você está adequadamente desarrumada para se perder em detalhes, será sua cara lavada e o espelho.
Sua vez de encarar o espelho e dizer parafraseando: Reconheço que não fico bem com qualquer roupa, mas mesmo assim não consigo
deixar de me amar. E mais ainda, sorrir para sua irmã gêmea que sempre tenta trazer aquele sorriso lindo de dentro do espelho.
Será?...
Com boa conselheira e péssima ativista aconselho a todos nós: espelho em todos os momentos mais felizes de nossa vida! e nos infelizes também!,
um reflexo aguçado e prático como alongamento, musculação, pilates, yoga, estas coisas literalementes saudáveis.
Minha vez de encrar o espelho, confesso meu pavor, mas juro que quando escrever o ultimo M, me levanto e...ao espelho por favor!

FIM


Jataí-GO
24.10.2010
 

 

 

 

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